O FUTURO DAS CORES

Por Tamara Ramos Feijó


Os termos Inovação e Sustentabilidade estão cada vez mais em alta na indústria da arte, da moda e do design. Palavras como “reciclagem” e “upcycling” estão ganhando ainda mais força, sentido e significado desde o desabamento do edifício Rana Plaza, em Bangladesh, no ano de 2013, que matou 377 pessoas.


A tragédia do Rana Plaza expôs o lado obscuro e desumano da indústria da moda “fast fashion”, composta pela produção de roupas baratas para rápido consumo e breve descarte. A produção em massa é feita nas regiões mais pobres do planeta como, por exemplo, Bangladesh (Índia), Vietnã e Wuhan (China), onde mulheres e crianças trabalham em esquema de escravidão e exploração ganhando menos de 2 dólares por dia, sofrendo abusos sexuais e carecendo de segurança física ou garantias jurídicas.


Nossa sociedade de consumo baseada na gratificação imediata promove verdadeiras aberrações como desrespeito aos direitos humanos, poluição ambiental e desigualdade social maciça.


Em tempos de Instagram e redes sociais onde qualquer pessoa pode se tornar uma celebridade de forma instantânea, o investimento na imagem pessoal beira o absurdo, com adolescentes e jovens mulheres promovendo o consumo desenfreado de roupas, acessórios e cosméticos descartáveis, como se fossem pacotes de biscoitos.


De olho nessa problemática da nossa sociedade contemporânea, a agência de pesquisa britânica, Franklin Till, levantou muitos questionamentos ousados em sua última edição da revista VIEWPOINT COLOUR (dez/19) e no workshop The Colour Futures Sessions, que ocorreu nesta terça-feira, dia 22/09. A sustentabilidade é o tema central deste ano e nos convida a refletir sobre a seguinte pergunta: “Será que chegou a hora de não querermos mais?”

Os editores sugerem que estamos entrando numa era de “decrescimento” ao invés do usal crescimento desenfreado, e que devemos repensar nossa forma de consumo para “uma redução da produção e do consumo que muda o foco da acumulação material para o bem-estar humano e o equilíbrio ecológico. Dada a extensão e a urgência da emergência climática, é hora de travar totalmente o consumo? Podemos nos contentar com o que temos e com o que já existe - em suma, parar de fazer coisas novas, ponto final? E se sim, como será o futuro papel dos designers? Como a indústria evoluirá?

Uma das propostas da agência é a de nos apaixonarmos novamente pelas coisas velhas.

Será que aquela roupa que está desbotada ou abandonada na gaveta não pode ser transformada? Será que um novo tingimento, uma reforma, um aplique ou uma manga diferente não seria capaz de resgatar o mesmo amor que sentimos pela peça no dia em que a compramos?


Quando falamos em reciclagem e upcycling temos um outro problema que poucas pessoas levam em conta: a importância da “cor do ano” ou “paleta de cores da moda” como obstáculo à viabilização da sustentabilidade.

O processo de reciclagem de peças de roupas, acessórios ou peças de design precisam valorizar as cores do material que está à disposição, independente da cor da moda.


Se vamos reaproveitar uma série de tecidos ou retalhos para construir uma roupa nova, a identidade cromática do material utilizado deve ser valorizada e mantida. O processo de padronização da indústria que dita as cores das vitrines em alinhamento às cores lançadas anualmente por marcas como Pantone, Coloro ou Coral, engessa a criatividade de etilistas e designers. Se uma determinada cor é lançada globalmente como “a cor do ano” pela indústria, as pessoas podem não desejar adquirir nada que esteja fora deste padrão pré-estabelecido, o que levará ao prejuízo os produtores de inovação.


Essa visão mais alternativa do consumo de moda precisa abraçar e celebrar imperfeições no produto, cores diferentes e ideias fora do padrão. Uma peça feita com material reciclado possui vida própria que não é livremente moldada ao gosto do designer. O produtor precisa respeitar os elementos de textura, cores e padrões dos retalhos ou tecidos e a partir daí criar uma peça única com características intrínsecas exclusivas.

No universo da moda sustentável o igual vira utopia. Cada peça é diferente por natureza e pela matéria prima original diversificada. Mas será que estamos prontos para seguir um caminho individual, consciente e mais distante dos padrões impostos pelas celebridades instagramadas?


RECICLADO, ATRAENTE E BONITO


O maior desafio dos designers atuais é desenvolver produtos sustentáveis, e com material reciclado, sem perder a beleza e a atração das peças novas. O fato de uma peça ser feita a partir de outras peças não significa que ela precise ser feia, deselegante ou mal produzida.


Não precisamos transformar um bando de retalhos num vestido frankstein de Halloween. Reciclar com bom gosto e refinamento é a grande prova dos designers modernos, e todas as pessoas que trabalham com moda precisam trabalhar a criatividade sustentável com foco no belo.


As pessoas estão cada vez mais conscientes das questões ambientais, climáticas e sociais, e certamente vão gostar de peças recicladas se elas atenderem aos padrões estéticos de consumo. Usar uma roupa reciclada pode ser tão chique, descolado ou elegante como usar roupas de marcas famosas como Gucci ou Chanel.

Aliás, acredito que em pouco tempo até mesmo essas grandes marcas terão que repensar seus valores, ou serão engolidas por essa nova geração consciente da importância de preservar o planeta.




A designer americana, Eileen Fischer, começou a receber roupas usadas dos clientes para serem recicladas em 2009. Em 2017, ela já havia recebido e reciclado mais de 900 mil peças! Desde 2015 ela trabalha em parceria com artistas e designers para transformar roupas usadas em artigos novos totalmente reciclados e bonitos.




O designer americano, Darren Romanelli, produz roupas e móveis totalmente reciclados a partir de materiais que ele adquire no E-bay e em mercados de roupas usadas. O designer revela que passa meses desenvolvendo uma relação de afeto com os materiais antes de cortá-los e transformá-los em algo novo.





A designer de tênis londrina, Helen Kirkum, cria calçados incrivelmente originais a partir do desmanche de tênis velhos. Os tênis dela são únicos e sua criatividade é tão respeitada que ela já produziu calçados em parceria até com a Melissa.


Faça uma inspeção no seu guarda-roupa, veja se há peças que podem ser reformadas e dê uma segunda chance a elas antes de descarta-la. O planeta agradece!




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